domingo, 24 de enero de 2010

GRABADO: Cosme de Farías
Cosme de Farias e os Capoeiras na Bahia:
Um Capítulo de História e Cultura afro-brasileira Josivaldo Pires de Oliveira (Bel)1 Nasceu no dia 02 de abril de 1875, em São Tomé de Paripe, subúrbio de Salvador, então Província da Bahia, filho de Paulino Manuel e Júlia Cândida de Farias, cursou apenas
o primário. Seria o bastante para se tornar vereador, deputado estadual, ativista social tendo, como rábula, defendido “mais de 30 mil ladrões, prostitutas, bicheiros, homicidas, homens e mulheres caluniados, pobres que mofariam na cadeia sem dar a sua versão dos fatos”.8 Muitos desses “criminosos” ou ludibriados réus defendidos por Cosme de Farias eram capoeiras. Em grande parte dos documentos que encontrei na pesquisa que deu origem ao livro No tempo dos valentes, o Major aparecia como autor de pedido de soltura e habeas-corpus em favor de indivíduos identificados como capoeiras. 9 Os casos que se
seguem ilustram a prática do rábula na defesa de capoeiras que comprovadamente se envolveram em conflitos de rua com diferentes proporções, gerando assim problemas com
a justiça. Desde assassinatos de grande repercussão como foi o caso do capoeira Bastião, até as pequenas contendas da vida diária que marcaram a experiência de vida dos capoeiras
Pedro Porreta e Chico Três Pedaços, o Major Cosme de Farias era requisitado como orábula dos capoeiras.
Fac-símile do original do pedido de soltura (P. deferimento) em
favor do capoeira Chico Três Pedaços, assinado pelo Major Cosmede Farias, disponível no Arquivo Público do Estado da Bahia –Seção Judiciária
.

sábado, 23 de enero de 2010

"Com o Pé sobre um Vulcão": Africanos Minas, Identidades e a Repressão Antiafricana no Rio de Janeiro (1830-1840)

GRABADO:Jogo de capoeira na Bahia, década de 1820.
http://saladepesquisacapoeira.blogspot.com/2009/08/1733-carolina-del-sur-boxeador-y.html

"Com o Pé sobre um Vulcão": Africanos Minas, Identidades e a Repressão Antiafricana no Rio de Janeiro (1830-1840)

Carlos Eugênio Líbano Soares e Flávio Gomes
Resumo
Este artigo busca retratar o terror que assomou os moradores brancos da cidade do Rio de Janeiro quando do êxodo crescente de africanos ocidentais da cidade de Salvador, na Bahia, para o Rio de Janeiro, principalmente após a derrota do levante malê de 1835. Discute também a questão das identidades políticas construídas pelos africanos ocidentais ocultas sob o manto de identidades "étnicas", geralmente muito mal discutidas pelos historiadores. Também debate o medo da "politização" do protesto escravo que assolou os senhores do Rio nos anos 1830, dentro do quadro maior de inconformismo com os políticos conservadores na Regência.

O segundo semestre de 1835 continuou tormentoso para as autoridades. Além dos capoeiras, número significativo de escravos são presos por conduzirem armas, ou mesmo por desacato a autoridade. Uma simples comparação dos boletins mensais de prisão, de 1833 e 1834, demonstram a escalada insurreta. Mais do que nunca, as ruas da Corte em 1835 são tomadas pela maioria africana e escrava na cidade. Nem os símbolos visíveis da dominação, como os libambos de negros acorrentados, intimidam a avassaladora onda rebelde que percorre a cabeça dos pretos e pretas da cidade. Os proprietários brancos ficam enclausurados em suas casas, com medo da onda negra nas ruas.
A vaga revolucionária que toma o Império, fazendo eclodir levantes de Norte a Sul do país, chega inevitavelmente à capital do Império, e não vem somente da Bahia. Felipe Moçambique, ao ser levado para o Calabouço do Castelo para ser supliciado, fez amaldiçoar seus captores, pois "disse que havia de acontecer aqui o mesmo que aconteceu no Pará", onde a rebelião dos cabanos tomou o poder na capital da província (ANRJ, IJ 7, "Partes...12.11.1835"). A Corte não estava de modo nenhum isolada do contexto do Império. E o contexto do Império era também Atlântico.
Em alguns momentos – como Chalhoub bem definiu – nas ruas da Corte, o medo ficaria sólido como uma rocha. Em julho de 1835, um estranho ofício foi parar na mesa do temido chefe de polícia da Corte, Eusébio de Queiroz Coutinho Matoso Câmara. Era sobre a apreensão, junto a africanos, de um papel escrito com "bizarros sinais", aparentando ser um alfabeto indecifrável. Ninguém na repartição policial soubera decifrar tais escritos. Para decifrador foi convocado um africano nagô. O africano – não sem aparentar dificuldade – prontamente afirmou que aquele era um alfabeto usado por um povo que vivia ao norte de sua terra original, na África Ocidental, para onde os jovens de famílias proeminentes eram mandados, e que era usado pelos sábios de sua gente. Pausadamente ele traduziu o que parecia uma prece muçulmana, mas que reproduzia um diálogo entre defensores da paz e apologistas da "guerra". Não pode haver dúvidas que a tal "guerra" na realidade era um sinônimo para rebelião.16
16. ANRJ, Ij6 170, jan.jul. 1835, ofício do chefe de polícia ao ministro da justiça.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-546X2001000200004

martes, 19 de enero de 2010

Manuscritos de Mestre Pastinha


A capoeira é a luta das lutas. A capoeira é a segunda luta ? Porque a primeira é a dos caboclos, e os africanos juntou-se com a dança, partes do batuque e parte do candobrê, procuraram sua modaliadde. Em cada fregrisia um africano com uma responsabilidade de ensinar, para fazer dela sua arma contra o seu persiguidor, se comunicavam no cantos inprovisados dançava e cantava, inredos inventava, truques, piculas, para dar volta no corpo, esconder o chicote, inventando miseria, o corpo todo faz mizerêr, cabeça, mão, pernas, e só consegue com manhas. E o meu mestre bom, eu aprendi na rua da Laranjeira, e lecionei na rua Sta. Izabel em 1910 a 1912, quando eu abandoei a capoeira, e voltei, em 1941, para organizar o centro de capoeira, o 1o. na Bahia. Na escola de Aprendiz Marinheiro da Bahia eu era o 110, e lecionei os meus camaradas de 1902 a 1909, bom tempo. hoje á uma academia, é a primeira de angola

lunes, 11 de enero de 2010

1917-BAHÍA-Rueda de Capoeira (Mestre Noronha)


Diz mestre Noronha: Em 1917 famos convidado para uma roda de capoeira na Curva Grande roda de capoeira que so tinha gente bamba todos elles estava combinado para nos escurasar junto com a propria policia a roda de capoeira era de um sargento da policia militar corgiu (surgiu) uma forte discucão o sargento sacou uma arma de fogo que foi tomado da mão do sargento pello capoeirista que ten o apelidio Julio Cabeica de Leitoia um grande dizodeiro hove um tiroteio grande paricia uma praca de guerra ouve intervencão da cavalaria foi um caceite disdobrado tanto da parte da policia como dos capoerista fizero de nos capoerista barata no terreiro de galinha .Mais foi engano.

lunes, 4 de enero de 2010


Luís da Câmara Cascudo (1967) em sua obra Folclore do Brasil/ Pesquisas e Notas ao afirmar que.A unanimidade das fontes brasileiras indica a capoeira como tendo vindo de Angola.
Capoeira Angola, vadiação ou brinquedo, como dizem na cidade de Salvador.(1967:181).
Para este folclorista a capoeira seria o N´golo, dança praticada no Sul de Angola. Escreve:
.Entre os mucope do Sul de Angola, há uma dança da zebra,
N´golo, que ocorre durante a Efundula, festa da puberdade
das raparigas, quando essas deixam de ser muficuenas,
meninas, e passam à condição de mulheres, aptas ao
casamento e à procriação. O rapaz vencedor no N´golo tem o
direito de escolher esposa entre as novas iniciadas e sem
pagar o dote esponsalício (...) O N´golo é a Capoeira .....
(Câmara Cascudo, 1967:184).

4


domingo, 3 de enero de 2010

RIO 1817-capoeiras" não só jogando "


Gravura: Titulo CAPOEIRA Digital:icon395061_73v_238.tifAutor/Criador:Ender, Thomas, 1793-1875.Título:[Estudos de atitudes: capoeira.]Data:[18--].Em:-Thomas Ender -Procedente do Gabinete de Gravuras do Museu de Belas Artes de Viena
CARTA:
Conjunto documental: Registro de ofícios da Polícia ao comandante da Real e depois Imperial Guarda da Polícia
Notação: códice 327, vol. 01
Data-limite: 1811-1815
Título do fundo: Polícia da Corte
Código do fundo: ØE
Argumento de pesquisa: quilombos
Ementa: registro feito por Paulo Fernandes Vianna, intendente de polícia, para o coronel José Maria Rebello de Andrade Vasconcelos e Souza, primeiro comandante da guarda real de polícia da corte, informando o reaparecimento dos negros capoeiras na cidade, trazendo desordens para diversos lugares. O intendente pede que o rei mantenha escoltas, principalmente nos dias santos, para que sejam presos todos que forem encontrados não só jogando mas também envolvidos em desordens.
Data do documento: 6 de abril de 1816
Local: Rio de Janeiro
Folha(s): 67


http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=777&query=simple&search%5Fby%5Fauthorname=all&search%5Fby%5Ffield=tax&search%5Fby%5Fheadline=false&search%5Fby%5Fkeywords=any&search%5Fby%5Fpriority=all&search%5Fby%5Fsection=all&search%5Fby%5Fstate=all&search%5Ftext%5Foptions=all&sid=64&text=CAPOEIRAGEM

1817-RIO-Punición de CAPOEIRAS

Carta de Antônio Felipe Soares d’Andrada de Brederode pedindo a punição de negros capoeiras cativos em praça pública. Segundo o documento, eram conhecidos por capoeiras negros forros, livres e cativos, que eram procurados pela Polícia por cometerem delitos freqüentes no Rio de Janeiro. Em função do temor que a sociedade colonial nutria de levantes de escravos, a punição aos delitos cometidos pelos negros deveria servir de exemplo aos outros. Através desta carta, percebe-se ainda uma certa distinção feita entre negros forros e cativos quanto aos castigos recebidos, embora a intenção do exemplo fosse a mesma.
Conjunto documental: Ministério da Justiça
Notação: caixa 774, pct.03
Datas – limite: 1808-1817
Título do fundo: Ministério da Justiça
Código do fundo: 4v
Argumento de pesquisa: Revolta de escravos
Data do documento: 27 de fevereiro de 1817
Local: Rio de JaneiroFolha(s): -
“Senhor, Sendo freqüentes os delitos preparados por indivíduos desta cidade, forros[1] e livres uns; cativos outros; conhecidos pela denominação de capoeiras[2]; tem a vigilante Polícia[3] buscado capturá-los, as Justiças processá-los, e a Casa da Suplicação[4] sentenciá-los com exemplar zelo e interesse do Chanceler que serve de Regedor[5], especialmente nas visitas da Cadeia em que é juiz.Quanto aos forros é uma das penas aflitivas a de açoites pelas ruas públicas; quanto aos cativos na grade da cadeia, e no calabouço. Mas como o principal fim seja o exemplo aterrador dos cativos parecia conseguir-se melhor, sendo dados os açoites nos cativos[6] em Praças mais públicas, e lugares onde estes maus indivíduos capoeiras costumam fazer suas paradas e depois suas desordens e delitos.Mas, como não esteja em uso prático serem açoitados no Pelourinho[7] e Praça do Rossio, na do Capim, na da Sé, e outras, não me atrevendo a fazer esta inovação, posto que a julgue necessária, e haja agora ocasião com dois escravos, um crioulo, outro de Nação condenados em açoites, sou a pedir a Vossa Majestade pelo expediente desta Secretaria de Estado dos Negócios do Brasil queira expedir as ordens a este respeito ao Chanceler que serve de Regedor, (...) para este informar, e ficarem registrados nos livros da Relação para terem o seu devido efeito. Vossa Majestade mandará o que justo lhe parecer ao seu Real Serviço.
Rio de Janeiro, 27 de Fevereiro de 1817.
O Corregedor do Crime da Corte e CasaAntônio Felipe Soares de Andrade de Brederode”
http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=798&sid=65
Conjunto documental:
Relação de presos feitos na Polícia
Notação: códice 403, vol. 01
Data-limite: 1812-1816
Título do fundo: Polícia da Corte
Código do fundo: ØE
Argumento de pesquisa: Ementa: registro da prisão dos escravos, Felipe Lebolo, Manoel Benguela, José Benguela, Serafim Congo e Augusto Angola, todos por praticarem a capoeira, fazendo tal desordem que quebraram a perna de um negro que teve seu nome ignorado.
Data do documento: 5 de junho de 1811
Local: Rio de JaneiroFolha(s): 8
http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=777&query=simple&search%5Fby%5Fauthorname=all&search%5Fby%5Ffield=tax&search%5Fby%5Fheadline=false&search%5Fby%5Fkeywords=any&search%5Fby%5Fpriority=all&search%5Fby%5Fsection=all&search%5Fby%5Fstate=all&search%5Ftext%5Foptions=all&sid=64&text=CAPOEIRAGEM

jueves, 31 de diciembre de 2009

1916-BAHÍA- Manuel Querino decribe el "RITUAL DO JOGO"

Das ruas às academias
Por este viés de apresentação, compreendemos a Capoeira como uma cultura extremamente rica e complexa, muitas vezes ampliada pela circularidade construída por indivíduos que também
fazem parte em outras manifestações culturais, e, às vezes, simplificada pelo seu processo de ensino e aprendizagem em vigor nos dias de hoje. O que quer dizer que, mesmo sem a organização e o padrão existente atualmente, a Capoeira se constituiu e se expressa como uma “cultura aberta” ao absorver elementos de outras manifestações culturais.
Para compreender essa transformação citamos Manoel Querino que traz à luz fatos do passado, de um passado que viu e ouviu. Com seus relatos mostra a Capoeira baiana do século XIX e
estes, somados a outros trabalhos, permitem-nos perceber tal prática cultural a partir do estilo de vida do próprio capoeira. O angola era, em geral, pernóstico, excessivamente loquaz, de gestos amaneirados, tipo completo e acabado de capadócio e o introdutor da capoeiragem, na Bahia. A capoeira era uma espécie de jogo atlético, [...]. O capoeira era um indivíduo desconfiado e sempre
prevenido. [...]8
Com relação ao ritual do jogo, além de registrar os locais preferidos, descreve:
Previamente, parlamentavam, por intermédio de gazetas manuscritas. Duas circunstâncias atuavam, poderosamente, no espírito da mocidade, para se entregar aos exercícios da capoeiragem: a leitura da história de Carlos Magno ou os doze pares da França, e bem assim, as narrações guerreiras da vida de Napoleão Bonaparte. Era a mania de ser valente como, modernamente a de cavador. Nesses exercícios que a gíria do capadócio (chamava) de brinquedo, dançavam a capoeira sob o ritmo do berimbau [...]9

8 QUERINO, Manuel. Bahia de outróra – vultos e factos populares. Bahia: Livraria Econômica, 1916, p. 195.
9 Ibidem, p. 196.

FUENTE:
IDENTIDADE OU DIVERSIDADE CULTURAL?capoeirabrasilamazonia.com.br

martes, 29 de diciembre de 2009

Manaus da Belle Époque

Manaus da Belle Époque: um cotidiano em tensão.
A Utopia da Modernidade na Cidade Disciplinar, 1890 1920

Paulo Marreiro dos Santos Júnior
Doutorando em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
e-mail: paulomarreiro@hotmail.com


Através de uma análise revisada e redimensionada do processo histórico de Manaus, pode-se questionar que o ufanismo da Belle Époque 4 manauara. Assim, evidenciando um cotidiano muito diferente do vivido pelas classes populares da cidade, esquecidas pela História. Dessa forma, práticas populares serão abordadas aqui em um momento que eram vistas pelas autoridades manauaras como ilícitas e ações criminosas , condenadas pelos códigos normativos, criminalizadas 5................Torna-se enfático o título da matéria abaixo, dando a entender que o acusado fazia parte da elite social de Manaus por proferir que o mesmo era da moda, como também ressaltar que o acusado era um atravessador bastante conhecido no Mercado publico . Das inúmeras notas registradas somente esta parece ser de uma personalidade conhecida na sociedade amazonense e que tenha se envolvido em questões de desordem social.

Joaquim Bonifacio de Almeida, atravessador bastante conhecido no Mercado publico*,
foi preso, hontem no bosque municipal, quando, armado de um reluzente pajehu, promovia desordens, desafiando os populares para uma
lucta á arma branca.
41

5 Criminalização ou criminalizar é a tentativa de enquadramento por via da percepção policial utilizando como subterfúgio algum ato condenável que esteja codificado e sendo vinculado à atitude indesejada pelo policial. Assim, a atitude ou prática condenável não estipulada nos códigos da legalidade torna-se relativa, pois depende de conceitos de moralidade, história de vida, leituras de representações que formam a personalidade do policial, pois esse é quem aborda o suspeito em potencial e quem executa a persecução criminal. Logo, uma reunião de alguns negros do início do século XX poderia representar motivos
para aprisionamento pela tipificação de capoeiragem. A criminalização também é constituída sob a égide do estigma social e territorial. A mesma atitude poderia ser criminalizada ou não dependendo do personagem social e do ambiente que esse se encontra.

41 Jornal do Commercio. Coisas Policiais: Um ferrabraz da moda , 16-11-1917.
fuente:
Manaus da Belle Époque: um cotidiano em tensão. A Utopia da ... -

Jogos, lutas e resistências

Jogos, lutas e resistências
Coordenador: Luiz Augusto Pinho
ENTRE VADIOS, VALENTES E MESTRES CAPOEIRAS
Josivaldo Pires de Oliveira
Mestrando em História Social
Universidade Federal da Bahia
rasbel@zipmail.com.br

Um outro espaço a ser considerado como de resistência foi o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), do Mestre Pastinha. O CECA tinha um discurso que legitimava a africanidade da capoeira: “capoeira vêi da África/africano quem criou”.14 A capoeira angola, considerada como a única que resistiu, foi na verdade uma forma de resistência que também se utilizou da via legal. O discurso dos angoleiros afirmava a origem africana da capoeira, enquanto que o discurso autoritário do Estado negava a sua relação com a cultura afro-brasileira. No entanto os angoleiros apropriaram-se do discurso da legalidade para legitimarem a atividade de capoeiragem, inclusive nas ruas, espaço que os membros do Centro de Cultura Física já não se sentiam à vontade em freqüentar em função do status adquirido15. Podemos compreender, desta forma, que a criação do Centro Esportivo de Capoeira Angola representou mais uma possibilidade de resistência cultural por parte dos setores populares de origem afro-descendente.
14. Este cântico, assim como outros que não aparecem neste trabalho, juntamente com alguns depoimentos do mestre representam fontes importantes para essa pesquisa e encontram-se em Mestre Pastinha e sua academia (L. P.). Salvador: Fontana, 1979. Lado A
15 Há um fato relatado por Waldeloir Rego que reflete esta situação: “Então houve um cafuzo, mestre de uma academia, que, ao saber da finalidade do convite, declinou, alegando ser sua academia freqüentada por uma casta já referida, não podendo misturar-se com o povo de festa de largo” ( REGO. Op. cit.: 361).

http://www.uesb.br/anpuhba/artigos/anpuh_I/josivaldo_pires_oliveira.pdf

‘negros da Glete’ ou os ‘bambas da Barra Funda’.

Sons de São Paulo: a atividadera diofônica paulista nos anos1930/40 *Geni Rosa Duarte
**................as populações negras, desde fins do século passado, concentravam-se na capital paulista em regiões já em parte deterioradas próximas ao centro e nos bairros de estrutura urbana precária, geralmente próximos às ferrovias. A Barra Funda, anteriormente ocupada poritalianos, antes da construção da estrada de ferro, passava a ser palco das atividades ligadas às tradições e ao cotidiano dessas populações, ligadas por elos étnicos, sociais e culturais comuns. Vale a pena reproduzir o texto em que José Geraldo Vinci de Moraes descreve os elos desse verdadeiro território negro paulistano: As ‘tias africanas’, por exemplo, à semelhança do Rio de Janeiro e Salvador, abrigavam muitos negros em atividades coletivas religiosas, do jongo às festas cristãs. Nas habitações geralmente coletivizadas, onde moravam extensas famílias, eram freqüentes as atividades musicais em grupo. Muitos dos negros que levavam um tipo de vida mais inferiorizada e marginal, trabalhando nos serviços pesados da ferrovia e armazéns, guardavam certa distância das atividades coletivas, mas realizavam suas rodas de partido alto, de capoeira e pernada, além de serem reconhecidos por todos como os melhores e os mais habilidosos jogadores de futebol da cidade. Como eles viviam no trecho inferior da alameda Glete, ficaram conhecidos como os ‘negros da Glete’ ou os ‘bambas da Barra Funda’.3
http://www.uepg.br/rhr/v8n2/821GeniDuarte.pdf

jueves, 24 de diciembre de 2009

“serviços” de capoeiragem



Os versos aqui registrados por Almirante num programa de rádio em 1946 são precedidos de sua explanação do porquê da expressão “pegar na chaleira”: o senador gaúcho, Pinheiro Machado, líder do Partido Rebublicano, conservador, de grande influência política, tinha o costume de levar uma chaleira para preparar seu chimarrão. Aos aduladores, interessados em seu poder e influência, sempre prontos a servi-lo a qualquer custo, foi aplicada a expressão “pegar na chaleira” como forma de demonstrar o ato de bajular – não importando o quão quente estivesse a chaleira, os aduladores, muitas vezes, pegavam a chaleira fervendo ou “pelo bico”, causando estrago para suas mãos e tornandose fonte de piada para terceiros. Podemos ir mais além. “Subir esta ladeira” referia-se à residência do senador, que ficava no alto do morro da Graça (Glória), e era freqüentada por muitos políticos, proprietários de jornais, e até mesmo pelo João da Baiana, capoeira fiel ao senador, que mantinha lá suas afinidades com ele, para além dos “serviços” de capoeiragem prestados em época de eleição. Pinheiro Machado chegou a mandar restituir, certa vez, um pandeiro que João teve apreendido pela polícia.32


32 “O pandeirista João da Baiana também era convidado a animar as festas do então senador Pinheiro
Machado. Em 1908, não pôde comparecer a uma dessas festas pois a polícia apreendera seu pandeiro (...)
quando tocava nas ruas da Penha. Sabendo do ocorrido, no dia seguinte Pinheiro Machado deu de presente a João da Baiana um novo pandeiro com a inscrição: ‘A minha admiração, João da Baiana, senador Pinheiro Machado’.” Apud Hermano Vianna. O mistério do samba. Op. cit., p. 114.

martes, 22 de diciembre de 2009

Um reconhecimento aos ilustres



FOTO: O Prof. Inezil, na Praia da Urca, em 1948, na clássica posição do discóbolo, ,símbolo da
Educação Física;
É de Inezil Penna Marinho o livro , um dos primeiros estudos (1945) sobre a utilização da Capoeira como método de defesa pessoal e ginástica, sistematizando-o também seu reaproveitamento como desporto. A pesquisa levou o Prof. Inezil a definir a Capoeira como a
Ginástica Brasileira. Não há registro da existência da capoeira ou qualquer outra forma similar à capoeira no continente africano. Em 1966, Inezil pôde confirmar esta convicção quando esteve em Angola, a fim de pesquisar uma possível origem da capoeira. Ele chegou à conclusão de que ela era inteiramente desconhecida por lá, quer entre os eruditos, quer entre os nativos, a cujas festas religiosas e danças guerreiras ele assistiu. A importância do livro reveste-se de vários significados. Todo relato anterior sobre a Capoeira foi queimado por ordem de Rui Barbosa. O livro, portanto, participa de um duplo resgate desta arte: enquanto atividade física e enquanto história do Brasil. Curioso é que, no Brasil Império, em 1851, a Lei de n.º 630 já incluía a ginástica nos currículos escolares. Embora Rui Barbosa não quisesse que o povo soubesse da história dos negros, preconizava a obrigatoriedade da prática da Educação Física nas escolas primárias e secundárias.

sábado, 19 de diciembre de 2009

Idéias Negras em movimento:

Idéias Negras em movimento:
Da Frente Negra ao Congresso Nacional do Negro
Arilson dos Santos Gomes•
Orientadora Prof. Dra. Margaret Marchiori Bakos

Em 1934 ocorreu no Recife, o Primeiro Congresso Afro-Brasileiro, organizado e proposto por Gilberto Freire, intelectuais, acadêmicos, antropólogos e integrantes da Frente Negra Pernambucana. Neste Congresso foram debatidos sobre a história da importação e da escravidão africanas, os problemas de aculturação do negro e as variações antropométricas raciais, além de discussões sobre os livros Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mocambos. De caráter regional, notamos que existe uma aglutinação de intelectuais brancos e negros em torno deste Congresso, que contou com a participação de Miguel Barros, Solano Trindade e Gerson Lima, fundadores da Frente Negra Pernambucana.8
Três anos depois, em na cidade de Salvador, na Bahia, realizam-se as atividades do Segundo Congresso Afro-Brasileiro. Este Congresso contou com a participação de intelectuais e acadêmicos. Organizado pelo Governo do Estado da Bahia, este Congresso teve grande repercussão nacional, contando com participantes de todo o Brasil. Entre os temas e pesquisas debatidas tivemos protestos dos intelectuais e participantes contra a interferência policial no candomblé. Entre outros temas foram apresentados trabalhos como: Castro Alves e a poesia negra na América, O Africano na Bahia, Contribuições bantú para o sincretismo fetichista no Brasil, O negro e o espírito guerreiro nas origens do Rio Grande do Sul, pesquisa apresentada por Dante Laitano, trabalhos realizados por afro-religiosos além de homenagens a Nina Rodrigues. Jorge Amado, participante, explicou que uma das preocupações do Congresso era manter a Capoeira em pleno ‘vigor’. O livro de Donald Pierson, Brancos e Negros na Bahia, escrito em 1945, foi produzido com pesquisas realizadas na vasta produção das teses apresentadas neste Congresso. 9 Em 1937, por ocasião do Estado Novo, tivemos o encerramento das atividades das Frentes Negras ‘espalhadas’ pelo Brasil e o ‘esfriamento’ das atividades político-sociais, em torno das idéias negras, advindas com as organizações de encontros, congressos e associações, que diminuem, mas não acabam.

http://www.labhstc.ufsc.br/pdf2007/9.9.pdf

lunes, 14 de diciembre de 2009

1917 a área da cidade com maior incidência da prática da capoeiragem


A acomodação da demanda por novos espaços, resultante desse amortecimento demográfico, contribuiu para (ou simplesmente pôs em evidência) uma outra limitação do projeto de modernização da Capital baiana, no que se refere à segregação das populações pobres e mestiças da área central da cidade. Com efeito, enquanto a reforma urbana empreendida no Rio de Janeiro teve como um dos seus traços marcantes a retirada das camadas menos favorecidas do centro para as periferias, em Salvador, esses grupos permanecem ocupando o núcleo principal da cidade, dividindo espaço com o comércio e as suas principais instituições públicas e privadas. Não por acaso, conforme observa Oliveira84, por volta de 1917 a área da cidade com maior incidência da prática da capoeiragem (prática característica das camadas populares) sobrepõe-se aos sítios que abrigavam tanto o comércio como as referidas instituições, conforme pode ser constatado na figura .

viernes, 27 de noviembre de 2009

1937 - Clube de Regatas Itapagipe


FOTO:Mestre Juvenal: Que venha Juvenal, jovem de vinte anos, que venha o mais ágil, o mais técnico, que venha qualquer um, e Samuel, o Querido de Deus, mostra que ainda é o rei da capoeira da Bahia de Todos os Santos. Os demais são seus discípulos e ainda olham espantados quando ele se atira no rabo-de-arraia, porque elegância assim nunca se viu... E já sua carapinha tem cabelos brancos... '
A CAPOEIRA NA SOCIEDADE DO CAPITAL: A DOCÊNCIA COMO MERCADORIA-CHAVE NA TRANSFORMAÇÃO DA CAPOEIRA NO SÉCULO XX.
BENEDITO CARLOS LIBÓRIO CAIRES ARAÚJO


A partir da organização da Regional, os demais capoeiras da época, resistentes às transformações realizadas por Mestre Bimba, iniciaram movimentos por uma organização institucional. A primeira tentativa de organização do movimento aconteceu no II Congresso Afro Brasileiro, que aproximou os mestres da ‘outra’ capoeira, sob o nome de União dos Capoeiras Baianos, liderada por Samuel Querido de Deus, o "que por razões desconhecidas não se concretizou.".(Abreu, 1999, p. 17). Vejamos a nota do jornal Estado da Bahia de 13/01/1937; com os comentários de Abreu,1999:



"CAPOEIRA ANGOLA – As nove e meia da manhã, haverá no campo de basket-ball do Clube de Regatas Itapagipe uma demonstração de capoeira Angola luta fetichista dos negros bantus da Bahia. A vadiação será dirigida por Samuel Querido de Deus, considerado pelos seus páres, como o melhor capoeirista da Bahia e terá o.concurso de Barbosa, Onça Preta, Juvenal, Zepelim, Bugaia, Fernandes, Eutychio, Neném, Ze Ambrósio, Barroso, Arthur Matos, Raphael, Edgar, Damião e outros adeptos da grande arte de Mangangá". Bimba ficou de fora, seu nome não aparece em nenhuma relação. Certamente o convite fora exclusivo ao pessoal da Capoeira Angola. Na ocasião, ele já andava cismado com os Angoleiros57 (e vice-versa), que rejeitavam sua Escola de Capoeira Regional, com a qual também não simpatizavam (penso eu) alguns influentes intelectuais do 2º Congresso Afro-Brasileiro, a exemplo de Edison Carneiro, seu organizador. (idem, p.18, nota 2)





Mestre Bimba, precursor do movimento de privatização da prática da capoeira58, constituía, nesses termos, o esteio para o surgimento do produto cultural Capoeira de Angola.



57 Denominação dada ao praticante de capoeira Angola: Angola –eiro. Segundo Houaiss (Dicionário Eletrônoco da Língua Portuguesa), "o afixo -eiro pode agregar-se a 1) um subst.: corujeiro, foreiro, fronteiro, ordeiro, verdadeiro etc.; 2) um adj.: agasalhadeiro, baixeiro, careiro, certeiro, raseiro etc.; 3) um adv.: traseiro, dianteiro. Junção de Angola + eiro, relacionado à idéia de nação dos capoeiras de Angola (não aos cidadãos da nação Angola – Angolanos, mas aos praticantes desse estilo de capoeira)


58 Em Bimba é bamba, Mestre Bimba é retratado como o primeiro profissional de capoeira: "Bimba fez da capoeira sua ocupação principal, fez dessa luta sua labuta do dia a dia, seu ganha pão. Seu exemplo não foi de imediato seguido pelos outros capoeiristas, conforme afirmou Jorge Amado em 1944. ‘O único profissional baiano da capoeira é mestre Bimba, um dos mais afamados da cidade. Todos os demais são amadores. O que não que dizer que sejam inferiores, que não levem a sério a ‘arte’, que não possam derrubar com um golpe bem aplicado qualquer um de vós. Samuel é marítimo, joga capoeira por diversão, e no entanto sua fama é tão grande se não maior que a do mestre Bimba’." (ABREU, 1999, p. 37).


miércoles, 25 de noviembre de 2009

LIBRO: Frevo, Capoeira et Passo Valdemar de Oliveira
150 pages
édité par : CEPE - Recife 1971

Capoeira ...... 57
Capitulo 5 ...... 59
origem do Passo ...... 62
A Capoeira ...... 66
O N'golo de Angola ...... 68
De dança a recurso de luta ...... 69
Capitulo 6 ...... 71
Os Capoeiras...... 73
A Aboliçao e a republica...... 80
Evoluçao singular da Capoeira, na Bahia...... 89
Os golpes da Capoeira ...... 92
http://www.capoeira-infos.org/ressources/bibliographie/frevo_capoeira_passo.html

Antonio Liberac rapporte, qu'en 1937, qu'il fut l'un des invités du 2ème Congrès Afro-brésilien réalisé à dans la ville de Sao Salvador. Liberac reproduit aussi un Article du Journal "Estadio da Bahia" qui annonce une démonstration de Capoeira le 13 février 1937 : "à 9h30 du matin, il y aura sur le terrain de Basket-Ball du Club de régates Itapagipe une démonstration de Capoeira Angola, lutte fétichiste des nègres Banyus de Bahia. La "vadiaçao" sera dirigée par Samuel Querido de Deus, consideré pas ses pairs comme le meilleur capoeiristes de Bahia, et aura le concours de Barbosa, Onça Preta, Juvenal, Zepelin, Bugara, Eutyquio, Nénem, Zei, Ambrosio, Barroso, Arthur Matos, Rafhael, Damiao et autres adeptes de l'art de Manganga"